Lá vem as eleições e já se levanta o circo do mau-gosto. Fico pensando nessa farsa da nossa democracia, não só a nossa, a democracia liberal há muito que se prostituiu com o grande capital. Falando assim parece que eu sou um marxista revolucionário, esse também não é o caso. Mas me irritam esses discursos de liberdade democrática quando o que se observa mesmo é a vitória de quem tem mais. Nas eleições principais então, todos os cargos majoritários tem apoio direto dos principais setores das oligarquias financeiras. Não adianta querer mudanças estruturais, sempre as mesmas caras irão aparecer. Os representantes das milícias, dos bicheiros, dos banqueiros e todos os setores produtivos da sociedade permanecem alterando-se na dança das cadeiras. O jogo democrático segue seu esquema de permanências das mesmas coisas. Não adianta. Ninguém vai me convencer do contrário. Não acredito nessa democracia. Também não acredito em ditaduras. Pra falar a verdade ando meio desacreditado com os gestores do poder. Sempre bati palmas pra nossas elites, elas são as melhores do mundo. Conseguem manter sob sua tutela milhares de despossuídos dosando bem a dose amarga da força bruta. Tudo bem que as vezes transborda num Carandiru, ou num El-dorado dos Carajás, ou numa incursão do pacificador com cara de morte da PM carioca. Fora essas pequenas gafes as elites permanecem no seu lugar e, para desespero da classe média, os pobres estão cada vez mais perto. Enquanto isso nossa mídia achincalha aqueles idiotas que se colocam na vitrine pública da política, sabendo que o centro de decisões está sempre na esfera privada dos CEOs. Aliás, CEOs é uma palavra bonita, para além de seu significado feio, chief executive oficcer, a palavra me lembra o teto cravejado de estrelas que insiste em permanecer calado diante de nossas mazelas. No meio dessas mazelas ficamos aqui sonhando em liberdade quando o que temos realmente é espaço vigiado e totalmente controlado por câmeras de segurança e pelo famigerado Google street view. Mas, silêncio vai começar o horário eleitoral e se você gosta de colecionar frustração ou falácias basta apertar o rec.
domingo, 18 de julho de 2010
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Whatever Works
Woody Allen está otimista. Tudo bem que é um otimismo que não se entrega facilmente, e, como dizem aqueles que apreciam as coisas complexas – entre os quais eu por pura preguiça não me incluo, as melhores uvas estão nos galhos mais altos. Seu último filme é um brinde a fé. Não a fé mesquinha dos fundamentalistas. Essa merece todas as porradas que sempre recebe dos intelectuais previsíveis. Nem tão pouco essa fé é um sentimento de esperança cega e simplista em crenças de crescimento auto-sustentável ou atitudes politicamente corretas. O clarinetista de horas vagas nos oferece um divertido passeio por adoráveis estereótipos humanos, cada um com a maravilhosa vocação para ser mais.
Nova York é o cenário dessa comédia ácida e divertida e nela a vida vai pregar peças e facilitar o obvio e também o inusitado. É justamente esse um dos grandes trunfos do filme: nada de formas prontas, apenas a vida acontecendo e nos levando de roldão com a generosa boa vontade do diretor. A deliciosa escolha de narrar a partir do personagem em primeira pessoa e em tempo real também é um petisco a parte que torna o filme ainda mais saboroso. Contudo, é preciso tomar cuidado pra não cair na armadilha Boris, personagem alter-ego do autor. É preciso não levar Boris a sério, ele mesmo não se leva a sério. Quem levaria a sério alguém que tem a certeza de estar num filme? Toda a sua amargura e hipocondria e na verdade uma imagem invertida de alguém que, apesar de ser o arquétipo da negação da vida, prova que não importa o que aconteça tudo pode dar certo, será?
segunda-feira, 14 de junho de 2010
Numa tarde qualquer
A jovem vendedora foi audaz. As crianças encontraram um tesouro. A loja de instrumentos era o verdadeiro paraíso. Cornetas, violões, pandeiros, chocalhos e tudo mais de soar. Os olhos infantis brilharam diante daquelas coisas mágicas. Pronto estava armada a crônica de uma morte anunciada. Crianças e coisas frágeis. As mãos infantis foram feitas pra coisas frágeis e essas foram feitas pro chão, duro frio e inexorável. A vendedora desafiou o destino e convidou as crianças pra entrar. Ela sabia que não ia vender nada. Um bando de crianças barulhentas e ninguém com cara de pai por perto. Ela sabia que o desfecho seria inevitável, algum daqueles moleques ia destruir justamente o instrumento mais caro: o xilofone de marfim cravejado de rubis. Ah! mas aquele xilofone fora feito pra fazer som, não o som requintado e disciplinado de uma sala de concertos. Aqueles ossos ressequidos queriam viver novamente pelas mãos irrequietas de João. E o menino não se fez de rogado, foi apanhando as baquetas e partiu bravamente pro teclado branco. Alguém mais experiente já sabia que isso ia acabar mal. Toda aquela energia liberada em meio a tanta delicadeza só poderia dar prejuízo.
Contrariando as expectativas as pequenas mãos batucavam daqui, enquanto bochechas rechonchudas sopravam de lá. O som da vida sem fronteiras invadiu aquela lojinha e por instantes eternos os sorrisos contagiaram tudo em volta. A desordem irritou alguns ranzinzas de plantão, mas ninguém deu atenção à reprovação de quem só espera o final trágico de cada lance. A cena prossegue e de repente o inevitável acontece: o Joãozinho e o xilofone se fundem numa musica doida que arrebata sentidos e faz transbordar de cores tudo em volta. O xilofone era mágico e seu encanto era presentear que o ouvia com pequenas parcelas de felicidade, tal qual gotas de chocolate incrustadas num panetone.
Naquela tarde ordinária o medo perdeu, dando espaço ao sonho de quem se atreve a arriscar um pouco mais só pra ver sorrisos sinceros.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Nada demais
Nada que não anda
Não faz não sente não chora
Nada de alegria de devir
Nada existindo na dor
Nada em águas turbulentas
Nada afogado em rancor
Nada só mágoas
Nada nem flor
Sem cor sem cheiro
Só rudes espinhos negros
Sem frescor
Nada que não passa
Nada que não é
Não pode tocar a essência do ser
Não há o que ver nem desejar
Nada pra sonhar
Nada que ama
Mas como pode alguém amar o nada?
Circulante
Abre os olhos meu amor
Contempla a vida violentamente a fruir
Escuta o som do devir constante a reclamar suas revoluções
Prova o acre-doce e o amargo do mais sublime licor
Sente a carícia mais tenra a dor mais profunda
Essa a essência da própria presença
Esse é o existir em si mesmo
Essa emoção fugaz e passageira
Singela pétala beijada pelas asas da borboleta
Perene neve nas alturas do Himalaia
Talvez faça sentido estar
Não e sim num confronto
Sangue suor e água
Sal e secura desenfreada
Essa vida que insiste em não ser
Apesar dos sorrisos da alegria e da beleza
Um constante seguir de dias
De horas e momentos
Um instante e já foi
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